quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Região de Setúbal e Alterações Climáticas

 


Nos últimos meses as notícias sobre catástrofes naturais um pouco por todo o planeta começaram a rivalizar com as notícias sobre sobre a actual pandemia. De repente, regiões do Canadá onde por vezes até neva em Junho atingiram dos valores mais altos de temperaturas já registados na Terra, provocando milhares de vítimas. Depois a Europa central, nomeadamente a Alemanha, conheceu devastações impensáveis, logo seguida por uma região da China com cheias onde em três dias choveu o que chove habitualmente durante um ano. Mais recentemente, neve em grande parte do sul do Brasil. Paralelamente, fogos desde a Amazónia e Pantanal à Califórnia e à Austrália, com o absurdo de a Sibéria também estar a arder. Mais recentemente, foram tornados nunca vistos nalguns Estados dos EUA e nevões e cheias inéditas em certas regiões da Europa.

Apesar das ondas de calor que grassaram por quase toda a Europa durante várias semanas em Junho e Julho deste ano, Espanha incluída, Portugal escapou até agora a esse fenómeno. Até o incêndio de Monchique pode ser atribuído a incúria e não necessariamente às alterações de clima, porque os resíduos dos grandes incêndios de 2018 não foram recolhidos, com a agravante de arbustos e outra vegetação rasteira - principal combustível nos incêndios do sul de Portugal - terem crescido desmesuradamente com as chuvas do último Inverno, e poucos proprietários - Estado incluído - não cumprirem a legislação de limpeza dos terrenos. 

E a região de Setúbal? Qual a sua posição e resiliência em relação às Alterações Climáticas? Na verdade não se prevê fenómenos na região idênticos aos que aconteceram no centro da Europa mas a região não está imune às ondas de calor, incêndios ou até inundações, em princípio de amplitude limitada, embora a baixa de Setúbal, o centro histórico do Seixal ou Corroios já tenham sido atingidos por cheias assinaláveis. 

No tocante a ondas de calor, por exemplo, no ano passado a região de Alcácer-do-Sal registou os valores de temperatura do ar mais altos em Portugal, com uma permanência por vários dias de mais de 40 graus centígrados. O valor da precipitação do passado Inverno deu um contributo fundamental para manter o caudal do rio Sado, mas nos anos anteriores a percentagem de água na nascente do rio - causado pela fraca pluviosidade - chegou a ser muito preocupante.

A Península de Setúbal é uma das zonas mais sensíveis do país em termos de clima. A Serra da Arrábida - dona de vários microclimas - tem sido poupada a incêndios desde os fatídicos fogos de 2003 que dizimaram vegetação única a nível mundial, mas não há segurança que a Serra, ou alguns dos seus maciços, não sejam atingidos pelo fogo no próximo Verão que os especialistas dizem que vai ser dramático em muitas zonas do Globo. Por outro lado, a deficiente gestão dos recursos hídricos, em especial nos estuários dos rios Tejo e Sado pode contribuir para a alteração do clima. E é bom não esquecer que debaixo da Península vive o maior aquífero da Europa. Por tudo isto, e não só, é bom estarmos preparados para as Alterações Climáticas na região de Setúbal, e tudo fazermos que esteja ao nosso alcance para as mitigar, quer seja através de pequenos gestos, como reciclagem e redução do consumo, quer através da consciencialização ambiental.

Texto e foto: José Alex Gandum


quinta-feira, 11 de março de 2021

Nuclear: especialistas assinalaram os 10 anos do acidente de Fukushima com encontro online



Os dez anos sobre o acidente nuclear de Fukushima no Japão foi o mote para promover um encontro com especialistas portugueses e espanhóis numa conferência online, no passado dia 11 de Março. Foram 26 os interessados que responderam à chamada, desde activistas anti-nuclear, professores universitários, jornalistas e dirigentes e outros representantes de associações de defesa do ambiente.


Os participantes espanhóis abriram a sessão, tendo Chema Mazon feito referência à mina de lítio em Cáceres e ao cancelamento por parte do Governo espanhol da reexploração da mina de Retortillo. Isidoro acrescentou que «o tema das minas é sempre polémico e lamentou a falta de jornalistas especialistas e críticos do tema». Explicou também que «há famílias que vivem da Central de Almaraz e das minas de lítio, pelo que há interesses económicos e sociais associados ao nuclear».

António Eloy, também no papel de moderador da conferência, referiu que «quase não há movimentos a defenderem a causa, e que está difícil mobilizar as pessoas, embora também tenha de se considerar as limitações causadas pela pandemia».

Pedro Soares, do IGOT e da Urtica, lembrou que «o nuclear não tem fronteiras» e que «a mobilização da opinião pública partiu dos problemas das bacias hidrográficas comuns a Portugal e Espanha». Alertou ainda para «os poderosos interesses económicos capazes de influenciar governos e até jornalistas», mas adiantou que «a opinião pública tem de estar unida, que há que incentivar acções conjuntas e que a luta vai continuar».

Vítor Cavaco, do Partido Os Verdes, referiu que «o lítio tem levantado grandes problemas porque a sua exploração acontece em zonas sensíveis e perto de populações». António Eloy reforçou a ideia que há que pressionar o Conselho de Segurança Nuclear e outros organismos nacionais e europeus, lamentando que a APA esteja descredibilizada, depois da situação do aeroporto do Montijo.

Paulo Constantino, da PROTejo, aludiu também à necessidade de pressionar a todos os níveis, através de artigos e cartas abertas, inclusive dirigidas aos ministros do Ambiente de ambos os países.

Manuel Collares Pereira explicou que «o nuclear está em retrocesso em muitos sítios no mundo, inclusive em Espanha, portanto, não se percebe a aposta em mais mineração de urânio». 

Carlos Matias, antigo deputado por Santarém, reafirmou que «o rio Tejo é muito castigado por focos de grandes agressões, e criou-se um movimento de defesa do Tejo, o que permitiu encaixar num caderno global as reivindicações do encerramento de Almaraz». O especialista é apologista da separação das questões de poluição das nucleares, e lembrou ainda que tem de haver uma aliança entre os trabalhadores das centrais e dos depósitos nucleares e as associações de ambiente, pois «a questão do emprego é fundamental para uma província como a Extremadura espanhola». Nesse sentido, António Eloy, aludindo à Central a Carvão de Sines, referiu que «o desmantelamento de uma central precisa de mão-de-obra, o que pode ser prestado pelos trabalhadores das próprias centrais».

Chema Mazon abordou depois a questão dos trabalhadores e da população, referindo-se aos efectivos da central de Almaraz, aos sub-contratados e aos sindicatos. Acrescentou ainda que o preço do urânio está a cair a nível mundial e que não faz sentido apostar neste tipo de energia.

Collares Pereira apontou o caminho, o qual «passa pela descarbonização com grande urgência, o que viria a criar muitos empregos, mas os Governos estão a andar muito devagar», concluindo que se «devia reivindicar a questão da urgência».

A terminar, foi referido que seria muito útil promover mais encontros deste género, e, a sugestão do moderador António Eloy, o próximo ficará marcado em princípio para dia 26 de Abril, dia que assinala os 35 anos sobre o acidente da Central Nuclear de Chernobyl.

Texto: José Gandum



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

CONTRASTES DE LISBOA ENTRE FEVEREIRO DE 2020 E FEVEREIRO DE 2021













                         Cais do Sodré, Ribeira das Naus 
























                       Terreiro do Paço e Cais das Colunas



 

domingo, 31 de janeiro de 2021

JÁ NÃO HÁ SÓ UM ALENTEJO... HÁ VÁRIOS ALENTEJOS

 


Uma canção de Paco Bandeira diz que "o Alentejo é lindo na Primavera". Eu acho - acho não, tenho a certeza - que o Alentejo é lindo em todas as estações do ano. Essa canção também diz que "os campos são verdejantes" e se "enchem as ribeiras para as lavadeiras". Pois bem, lavadeiras já só há nas histórias que a minha avó contava ao canto da lareira, e as ribeiras já não se enchiam há bastantes anos. Finalmente, neste Inverno as ribeiras conseguiram reabastecer-se, mas não se sabe por quanto tempo. É que o Alentejo - dizem os especialistas - é a região de Portugal mais sensível às alterações climáticas. E o envelhecimento das populações e o abandono das pessoas, por um lado, e o uso inadequado da terra em muitas zonas, por outro, ainda mais contribuem para pôr em perigo uma das regiões essenciais à identidade, cultura e economia portuguesas, o Alentejo.

Mas o Alentejo não é uno com os seus Alentejos. Há o Alentejo Interior e o Alentejo Litoral. E o não reconhecer essas diferenças tem estado na base de muitos dos erros tomados pelas entidades oficiais nos últimos anos. O Alentejo deve ser das poucas regiões da Europa que tem uma diversidade de contornos praticamente opostos: planícies a perder de vista, o maior lago artificial da Europa e algumas das melhores e mais selvagens praias do Velho Continente. Com tanta diversidade não se pode olhar para o Alentejo com uma identidade única. É preciso atender aos vários alentejos. Só assim se pode gerir bem a serenidade do montado, aproveitar da melhor maneira e sem causar danos as águas do Alqueva e salvaguardar o mistério da Costa Vicentina.

Infelizmente, nos últimos anos a genuinidade do Alentejo tem estado em perigo: a começar pelas culturas super intensivas na orla de boa parte da Costa Vicentina, culturas que não trazem mais-valias por aí além à economia e ao país, com a agravante de precisar de mão-de-obra que não está disponível na região, a qual geralmente vem de países longínquos e impensáveis, com todas as consequências sociais a isso inerentes. Também o olival e o amendoal, entre outras culturas, a oeste e a sul do Alqueva vão degradar o Alentejo nos próximos anos, tornando-o ainda mais vulnerável às Alterações Climáticas. E ainda me lembro do meu avô me dizer que a esteva é a última planta antes do deserto e que tem um aroma intenso para servir de aviso... e cada vez se sente menos o aroma da esteva em terras alentejanas.

Texto e fotos: José Alex Gandum


domingo, 3 de janeiro de 2021

GRETA THURNBERG - 18 ANOS

Quando fotografei Greta Thurnberg ela ainda tinha 16 anos... hoje fez 18 anos. O que me admira em Greta é o facto de ser sueca, já que a Suécia é um dos países (até agora) menos flagelado pelas Alterações Climáticas e que tem capacidade para as mitigar tanto quanto possível. Faria mais sentido Greta ser da Europa do Sul, de África ou se calhar até brasileira, mas "nunca" sueca. Mas é sueca, e pronto. E tem todo o mérito de, ainda criança, ter mexido e mexer com consciências que "não querem ver" a "pandemia" que não tem vacina... as Alterações Climáticas. Por isso, parabéns Greta por muitos motivos.




terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)


 "Somos, enfim, quem sempre quisemos ser. E todavia, não estando já na África, nem na Europa, onde nunca seremos o que sonhámos, emigrámos todos. colectivamente, para Timor. É lá que brilha, segundo a nova ideologia nacional, veiculada noite e dia pela nossa televisão, o último raio do império que durante séculos nos deu a ilusão de estarmos no centro do mundo. E, se calhar, é verdade." 

Eduardo Lourenço em 'Labirinto da Saudade', Gradiva Publicações, 8ª edição, Janeiro de 2012.


Fotografia de José Alex Gandum, 
feita no Museu da Electricidade, em Lisboa, em Maio de 2012

sábado, 14 de novembro de 2020

Entrevista inédita a Gonçalo Ribeiro Telles: 'Um mundo urbano utópico destruiu o mundo rural'

Gonçalo Ribeiro Telles desapareceu há poucos dias, aos 98 anos de idade, mas deixou uma obra muito extensa na área da arquitectura paisagista, e não só, o que podia não ter acontecido se não tivesse Ribeiro Telles um tio-avô que morava num 5º andar na Rua das Pretas, em Lisboa, de onde desde muito cedo uma visão sobre grande parte da capital despertou no futuro arquitecto paisagista um espírito arquitectónico, paisagístico e crítico. Viria a ser também político, passando por diversos Governos e estando na génese de inúmeras medidas ambientais, ainda hoje vigentes. Tido como um visionário, Ribeiro Telles lamentava-se, contudo, em muitas das conferências e das entrevistas que dava, que os poderes instituídos não o deixavam fazer tudo aquilo que ele pretendia fazer. Ainda assim, fez muito, não só na capital (onde os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian se destacam), estando também esteve na génese de muitas áreas protegidas, áreas que ele viria a criticar nesta entrevista inédita feita nos finais de 2010 e que nunca tinha sido publicada. 



Entrevista e fotos de José Alex Gandum 
 
José Alex Gandum - Professor, tem dito que em face do mundo actual toda uma filosofia sobre áreas protegidas - muitas das quais tiveram a sua assinatura - e sobre a conservação da natureza está ultrapassada. Porque razão tem essa ideia?

Gonçalo Ribeiro Telles - Porque o mundo rural está a acabar. Não se pode inventar todas as potencialidades e funções do mundo rural através de uma nova visão de conservação da natureza. É preciso encarar o problema de frente e não é com o desenvolvimento das áreas protegidas e com novos estudos que se chega a alguma conclusão. 

Mas as áreas protegidas não são importantes?

As áreas protegidas têm importância e continuarão a ter, mas como laboratórios, referências, modelos, pedagogia... e isso interessa a quem? Interessa principalmente aos que não são do mundo rural. As áreas protegidas foram feitas para desenvolvimento científico como laboratório e para dar a conhecer àqueles que não são do mundo rural qualquer coisa que possa justificar esse mundo. Ah, e para criar bons empregos desnecessários a pessoas que fazem parte da elite governativa. Mas o que se verifica hoje - e que é gravíssimo - é a queda drástica do mundo rural, o que vai arrastar todas as políticas relativas às áreas protegidas.

E de quem é a culpa para a queda do mundo rural?

O principal culpado é o fenómeno urbano, que afastou as populações das aldeias,condenando à morte as aldeias, e tornando este país num caos... foi também a reflorestação errada, que acabou por provocar... desflorestação. Aliás, a desflorestação foi o primeiro acto de despovoamento. A desflorestação é um fenómeno urbano, pois parte de decisões tomadas nas cidades, decisões que preferem criar um grande mercado internacional em detrimento dos mercados locais. E é assim que se mandam vir produtos de locais a milhares de quilómetros de distância, aumentando aquilo a que chama a pegada ecológica, quando esses produtos podiam ser produzidos localmente.

E aponta alguma solução para os incêndios florestais em Portugal?

Incêndios florestais? Portugal não tem incêndios florestais...

Como assim, Professor? Se todos os anos ardem milhares de hectares de floresta...

Ardem milhares de hectares de eucaliptais e aglomerados de pinheiro bravo. Isso não é floresta. A verdadeira floresta felizmente não arde ou arde pouco. Conhece grandes incêndios em florestas de castanheiros ou no montado?

Pois, na verdade não. Mas mesmo os outros incêndios são muito prejudiciais para a biodiversidade, não?

Claro. Nos tempos pré-históricos alguns incêndios tinham uma função útil, mas hoje em dia são completamente inúteis. Destroem os solos, dizimam milhões de animais e os seus habitats, e espalham muito CO2 que não faz falta nenhuma... além do mal que fazem às populações rurais, as quais só pensam em fugir para locais mais "seguros", leia-se vilas e cidades... e até para o estrangeiro.

Mas não se pode fazer nada para conter esses tais incêndios?

Desde que a pastorícia acabou e as aldeias começaram a ficar vazias ou quase só habitadas por velhos, ficou cada vez mais difícil evitar grandes incêndios nas manchas de eucalipto e pinheiro bravo. E a coisa é regular: os grandes incêndios de 2003 e 2005 vão repetir-se para o ano com certeza [ nota da redacção: 2011], e depois vai voltar a haver outros grandes incêndios em 2017 ou 2018... é que a vegetação cresce e fica disponível para arder a cada sete, oito anos. E isto porque nesse intervalo os poderes políticos e económicos nada fizeram para o evitar ou mitigar. Sendo que os incêndios no futuro serão ainda mais catastróficos por causa do aquecimento global, coisa que muita gente, até cientistas, ainda não acredita.

Há nisto tudo um problema de ordem cultural?

Exactamente, e isso ultrapassa até o problema económico. Esse problema de ordem cultural até destrói a esperança. O que vemos à volta é um caos distorcido. Há que recuperar uma dignificação do mundo rural para uma função essencial para a espécie humana, que é o contacto com a natureza, a produção de alimentos, fornecimento de água, etc.... enquanto é tempo. 

Então, como vai ser a cidade do século XXI? 

Na relação urbano-rural temos de rever desde a base a ideia se necessitamos ou não do mundo rural. O maior problema é a destruição do mundo rural pela frustração do desaparecimento específico de espécies, pela morte das aldeias, não há caminhos locais, fecham-se escolas e outros serviços públicos. É claro que as pessoas que conseguem sair das aldeias, saem, e vão para as vilas e para as cidades. Ficam os que não conseguem sair, normalmente os mais velhos... e depois ainda há a questão da agro-química, que vai acabar com o resto da agricultura tradicional.

Mas não se poderia transportar um pouco do mundo rural para as cidades?

Hoje pensam-se as cidades em grandes edifícios, com muitos andares, com uma vacaria no 1º andar, com uma horta no telhado, com umas palmeiras nas empenas... utopia que só serve para desclassificar o mundo rural.
Até porque o problema da biodiversidade está intimamente ligado com o mundo rural, não vale a pena fazermos charquinhos com rãs se não houver uma preservação e uma dignificação do mundo rural. Posso dar-lhe um exemplo aqui bem perto da falta de respeito do urbano intelectualóide pelo rural genuíno: o espaço que fica entre as dunas e a barreira das falésias da Costa da Caparica são os terrenos agrícolas mais produtivos da Europa, porque se conjugam ali uma série de factores propícios à agricultura, inclusive gente que sabe trabalhar a terra. No entanto, aprova-se um Polis que quer encher aquele espaço de construções para bairros sociais, em forma de caixotes intervalados com pequenos metros quadrados de relva que ainda por cima consome água da companhia...

Mas os bairros sociais também são necessários...

Claro que são, mas não devem ser construídos em espaços agrícolas. Ainda há muito terreno com menores aptidões agrícolas que podem ser urbanizados.

Qual é a relação de um mundo que está a desaparecer, de um mundo de que dependemos historicamente, até dos seus conhecimentos, e como vamos substituir quer no tempo quer espacialmente esse mundo?

Tudo se resume ao problema do desaparecimento das aldeias. É a própria história da humanidade que é mutilada. E depois também há motivos dos quais ninguém fala e que também afastaram as novas gerações do campo. Por exemplo, nos foros do Ribatejo e do Alentejo cresceram herdades ou companhias que enriqueceram muita gente, pela qualidade dos solos e a aposta certa em certas culturas. Mas isso também trouxe o reverso da medalha: os filhos e netos desses proprietários puderam ir estudar para as cidades e para o estrangeiro e quase nenhum voltou à sua terra - uma excepção ou outra no que toca aos vinhos, mas pouco mais. 
Em resumo, muita coisa contribuiu para o desaparecimento do mundo rural: o não aproveitamento dos baldios, o fim da pastorícia, o alastramento da agro-química com culturas cada vez mais intensivas em detrimento da agricultura tradicional adaptada aos solos e ao clima, os interesses da floresta industrial e da celulose, e em grande parte também por culpa dos que decidem estas coisas a partir de gabinetes nas grandes cidades sem nunca terem sujado as mãos na terra.
O problema da sustentabilidade já não se põe com o mundo rural mas com um mundo urbano utópico.

Outubro de 2010 na Livraria Almedina, em Lisboa